terça-feira, 14 de outubro de 2014

Aniversário




Hoje é uma data muito especial que mudou completamente o destino da minha vida. A exatamente um ano atrás, eu conhecia um ser especial (que alguns dizem ser inanimado mas eu duvido muito) que  mudaria a história da minha vida: a barra olímpica.

Me inscrevi no campeonato da IPL/ANF por indicação de um amigo, o  Diego Figueroa que disse: “cara, você é forte, deveria tentar. Sem expectativas, claro. Mas tente. Pode ser que você goste”. E assim eu fiz e fui lá no dia da pesagem. Me perdi no caminho e demorei algumas horas pra achar o local. Chegando lá, estavam as pessoas montando o tablado, a Marília organizando tudo e sem tempo nem pra respirar (como descobri que é comum a ela em dias pré-campeonatos) e um cara que foi me pesar que veio a se tornar um grande amigo depois, o Carlos Daniel. Ele fez minha pesagem e, nesse momento, percebi o quanto a falta de tempo nas últimas semanas e a má alimentação tinham cobrado um preço alto: eu pesei 99,7kg e caí da categoria que tinha me inscrito originalmente e que era a que eu tinha passado boa parte dos últimos anos nela: a categoria 110kg.

O CD (apelido do Carlos Daniel), me tranquilizou e disse que não haveria problemas e poderia competir na categoria até 100kg sem problemas (sim, é essa a minha história com a categoria 100kg. Mera casualidade). Aí ele me bombardeou com perguntas extremamente complicadas que eu tinha lido no livro de regras (sim, eu li o livro de regras inteiro antes de ir lá): tinha que dizer minhas primeiras pedidas ali naquele momento. Eu respondi imediatamente com total convicção:

- Não faço a mínima ideia! (Ainda lembro da cara incrédula dele me olhando. Sei lá o que ele deve ter pensado mas, com certeza, deve ter sido uma das respostas mais atípicas que ele ouviu na vida).
Ainda completei:
- Não faço a mínima ideia! Vim aqui por indicação do Diego e da Marília. Nunca sequer fiz um movimento máximo além do terra.
Ele pacientemente me respondeu:
- Brother, geralmente a primeira pedida é uma carga que a gente faz 3 movimentos em treino.
E eu:
- Beleza! Eu nunca fiz 3 movimentos em treino. (De novo, a cara dele de espanto foi sensacional).
Eu fiz minha pedida de terra: -200kg!.
E ele perguntou:
-Tem certeza, brother?? É uma carga meio alta.
Eu respondi:
- Tranquilo, essa é uma carga que eu faço de 8 a 10 movimentos em treino.

Pausa no diálogo pra descrever a expressão dele: os olhos quase saltaram da cara. E eu com uma cara sem fazer a mínima ideia do quanto isso era alto. Afinal, eu não via outras pessoas treinando terra em academia e todos os vídeos que via de caras fazendo no youtube eram na casa dos 300kg. Ai ele disse:
- Bom, se é assim, beleza. E o supino?
Como não tinha muita ideia, concordamos em 110 kg. Era uma carga que eu fazia lá meus 6 movimentos no total estilo de treino bobybuilder.
E chegamos a um impasse: Qual seria o valor do agachamento? Não chegamos a uma conclusão e chamamos a Marília. Ela, da maneira mais objetiva e direta, disse:
- Se o cara faz 200kg de terra, consegue agachar com 150kg! Mas a gente ajuda no aquecimento e, se for muito peso, você diminui até 5 minutos antes de começar o round.

A assim foi decidida as minhas primeiras pedidas pro primeiro campeonato de powerlifting da minha vida. Fui pra casa comer e descansar para o dia seguinte (mal sabia eu que essa era a última vez que eu tinha essa folga toda num campeonato no Brasil.. haha).

No dia seguinte, acordei e fui ao campeonato. Peguei um transito terrível na estrada e, novamente, cheguei achando que tinha me atrasado e não daria mais tempo de nada. Mas deu tudo mais ou menos certo e ainda tive que esperar algumas horas pra competir. Coloquei o macaquinho, pus o meião, o tênis, peguei a faixa de punho e o clássico cinto com meu nome escrito e fui pra área de aquecimento.

Entrei na área de aquecimento e aconteceu uma coisa incrível: eu vi, pela primeira vez na vida, uma barra olímpica! Deus, aquilo era a coisa mais linda que o ser humano já inventou! Eu só conseguia olhar pra ela. Colocava nas costas, agachava e me sentia numa nova vida com aquela maravilhosa e espetacular barra. Cara! Ela tinha recartilho!! Era grande! Tinha um diâmetro perfeito pra minha pegada! Resumindo: fomos feitos um pro outro e fomos separados por 30 anos. Aquele encontro foi épico.

Terminei o aquecimento, fiz até 140 kg com uma boa profundidade. E esperei me chamarem pro tablado. Quando disseram: barra pronta Hugo, eu fui até a barra, olhei, fiz a pegada, saque ela, andei pra trás, aguardei o comando AGACHE, agachei, subi e aguardei o comando GUARDE. E assim, a história de uma vida mudou.

Saindo do tablado, recebo os cumprimentos da Marília que disse: E ai?? Gostou? Foi tranquilo? Meu sorriso vinha da alma e não dava nem pra esconder a alegria. Disse a ela que foi tranquilo e muito divertido. Ela disse: aumente mais 15 a 20kg na próxima pedida.  Fui lá e pedi 170kg. Mesmo procedimento na segunda pedida e também foi um sucesso.

Olhei os outros competidores e pensei: tenho que tentar ganhar. Terceira pedida: 200kg! Saquei a barra e mal consegui andar pra trás direito. Comecei a descer e tentei subir, mas meu corpo não saiu do lugar. Fui ajudado e, até aquele momento, dividia o segundo lugar com o Felipe Ferrari com 170kg de agachamento.

Vamos ao supino. Aqueci e fiz até 100kg no aquecimento. Bem pausado e com calma. Pensei em subir mais 10kg mas vi que eu tinha a saída mais alta entre os outros atletas. Resolvi deixar em 110 mesmo. Esperei ser chamado ao tablado, fui la, deitei no banco, fiz o arco que tinha aprendido vendo os vídeos da equipe MAD powerlifitng pelo youtube, me passaram a barra, esperei o comando, desci, esperei o comando, subi e esperei o comando guarda. Foi legal, porem achei bem leve.

Segunda pedida: 125kg. Fui lá e fiz da mesma forma. Ainda achando leve. Resolvei subir pra 140 kg. Depois que subi, o André Giongo olhou pra mim e disse: - Cara, põe peso nesse supino que ta fácil demais pra você. Eu disse: subi pra 140kg agora. Acho que ta bom, né? Ele concordou. Fiz os 140kg e fiz a quarta pedida de um número impensado pra mim: 150kg. Foi meio difícil mas consegui fazer. Terminei o supino e estava em primeiro lugar. Eu, o mesmo cara que foi apresentado a uma barra olímpica há 2 horas.

Vamos ao terra. Cheguei a pegar na barra que ia ser usada no campeonato pro terra pois tinha uma dúvida: minha pegada abria em barras comuns com peso a partir de 200kg. Quando segurei a barra, dei risada. Ela tinha o maior grip do planeta. Ia aguentar o peso que fosse. Aqueci até 180kg tranquilamente, afinal não tinha muito peso ali pra mim ainda. Fiz 200 quilos quase que saltando do chão. Estava tudo muito leve. Subi pra 220kg. Fiz e cometi um erro técnico de não travar os joelhos. A carga era tão leve que eu inclinei demais o tronco pra trás e o joelho não finalizou. Nesse momento, tinha perdido a liderança pois o Eliseu tinha feito 240kg e eu só tinha 200kg válidos até aquele momento. Eu tinha pedido 240 kg também mas foi a hora que eu senti algo diferente: havia algo em mim que dizia: faça 250kg. Foi uma carga que tinha feito uma vez só antes disso na academia com strap por causa da barra convencional.

Mudei a pedida para 250kg. Fui pra barra e ouvi o trovão da chuva que caia la fora. Olhei pra barra, ela me olhou de volta. O grito apareceu na minha garganta como se fosse algo do fundo da alma. Gritei enquanto caminhava. Tudo ficou quieto.  O tempo deixou de existir. O mundo deixou de existir. Só existia eu, a barra e o movimento. Eu tinha transcendido. No primeiro campeonato. E foi a melhor sensação que já tinha experimentado. Três brancas,  um título brasileiro e o recorde de supino e terra. A sensação era de pertencer aquilo. Eu nasci pra fazer isso, pensei. Tentei ainda uma quarta pedida de terra com 282,5kg mas, infelizmente, a pegada abriu e não consegui finalizar adequadamente o movimento.

Ai veio a premiação, a confraternização e tudo mais. Mas duas frases trocadas com a Marília merecem ser contadas ainda:

Ao final do campeonato enquanto rolava a apuração (a planilha sempre da algum problema e demora). Estava sentado perto da Marília e começamos a conversar. Ela perguntou sobre o que tinha achado e eu, na hora respondi:

- Uma sensação estranha, Marília. É como se eu fosse um estrangeiro que tivesse voltado pra casa.

Ela perdeu a cor e me olhou no fundo dos olhos visivelmente abalada. Achei que tivesse dito algo errado e quase me desculpei antes dela conseguir dizer algo. Depois ela me contou que essa foi exatamente a sensação que ela mesmo tinha tido com o powerlifting. E ela descreveu isso com as mesmas palavras que eu tinha usado. Acho que, se existir destino, ele deu uma bela prova de existência naquele momento.

Outra frase foi a que ela me disse quando me abaixei pra receber a medalha:

- Pra alguns isso é apena uma diversão. Pra outros é uma forma de vida. Não importa o tempo que tenha demorado, o importante é que você chegou em casa agora. Seja bem vindo de volta e parabéns.

E hoje eu comemoro um ano no meu lar. Um lar que da trabalho pra manter e deixar limpo, me custa muitas horas de dedicação, custa caríssimo afetivamente pois não deixa espaço pra quase mais nada e conta com a incompreensão de grande parte das pessoas. É um caminho extremamente solitário, dolorido e lesivo. Mas vale a pena. Me deixa sob controle das desordens neurológicas que possuo. É um caminho de loucos. Mad with pride!



4 comentários

Erika disse...

Parabéns...

Artur disse...

Que história. Parabéns!

suely garcia disse...

Já tinha percebido que tinha perdido você,mais agora fico feliz que seja por uma justa causa.Parabéns e que seja muito feliz !!!!!!

Hugo Quinteiro disse...

Vamos lá, querida mãe:

Parece que você esqueceu a maneira que criou seu filhinho, né? Lembra quando você dizia pra mim: "quando fizer algo na vida, dê o seu melhor e vá até o final?" Pois é.. é só isso que estou fazendo aqui. Isso é o meu melhor e isso é ir até o final. Isso exige foco, concentração e lidar com dores que são comparáveis a sua porque eu aprendi a usar uma escala de dor e já comparei ela com trabalhos que mostram que eu vivo em escala comparável a artrite reumatóide grave.

Essas são MINHAS escolhas... MINHAS dores. Eu fico profundamente chateado quando as pessoas acham que me perderam pra um esporte. Não é "perder" porque não é uma "competição" a minha presença com pessoas X a minha dedicação ao esporte que me escolheu.

Esse joguinho afetivo foi muito bem trabalhado em terapia ao longo de 2015 e me fez entender que eu TENHO SIM espaço pra lidar com afetos independentemente da minha relação com o esporte. Aparentemente, uma única pessoa fora do mundo do powerlifting entendeu isso até hoje.

Espero que consiga lidar com isso de maneira adequada pois, de forma nenhuma, você me "perdeu" e o esporte me "ganhou". São caixinhas diferentes e todas eles tem espaço dentro de mim.


Bjo

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